Foto: Freepik

A decisão sobre quando uma pessoa idosa —ou alguém cujas circunstâncias físicas ou mentais tornam perigosa a direção— deve parar de dirigir são angustiantes. Elas podem abalar o senso de independência e identidade do motorista, e aumentar as responsabilidades que muitos cuidadores familiares carregam.

Sherrie Waugh já foi xingada, insultada e chorou em seu trabalho de autoescola. Normalmente essas reações extremas acontecem quando ela é forçada a dar uma palavra final perturbadora: é hora de pendurar as chaves do carro.

Waugh, especialista certificada em reabilitação de direção no The Brain Center, uma clínica privada de neuropsicologia em Indiana (Estados Unidos) têm entre seus pacientes frequentemente motoristas idosos, que passam por uma avaliação das habilidades visuais, tempo de reação e velocidade de processamento.

“Tive um senhor, que tinha demência precoce, que não parava de chorar”, conta Waugh. “Sua esposa estava no carro e ela estava chorando. E, no fim, quando voltamos, estávamos todos chorando, porque é difícil”, diz.

“É uma perda muito grande para os idosos”, diz Lauren Massimo, professora assistente na Penn Nursing. “Já me descreveram como desumanizante.”

Mas é importante levantar preocupações assim que as tiver, disseram as terapeutas, e há maneiras de tornar a conversa sobre “quando aposentar as chaves do carro” menos dolorosa para seus entes idosos.

AVALIE O PROBLEMA
Antes de pedir a um parceiro ou pai para desistir de dirigir, faça sua pesquisa, dizem os especialistas. Waugh, por exemplo, fica surpresa com o número de cuidadores que ela vê levantando preocupações sobre motoristas idosos com quem não estiveram atrás do volante recentemente.

“Se eles precisam pegar algo no supermercado, entre no carro”, disse ela. Observe: Eles estão ignorando semáforos ou placas de segurança? Eles estão lutando para manter o limite de velocidade ou permanecer na faixa? Eles ficam confusos sobre as direções, especialmente em rotas familiares? Esses são indícios de que suas habilidades de direção podem estar diminuindo”, diz.

E cuidado com o etarismo, especialmente ao descobrir como abordar a conversa, reflete a especialista.

“Realmente, não é só sobre a idade deles, é sobre mudanças em sua capacidade, que pode acontecer com qualquer um”, avalia Marvell Adams Jr., diretor executivo da Caregiver Action Network.

Adams sugeriu este início de conversa: “‘sabe, notei que parece que seus pneus estão se desgastando. Você está batendo mais frequentemente na calçada?'” Segundo ele, sua própria mãe tomou a decisão de parar de dirigir depois de pisar no acelerador em vez do freio.

COLOQUE A DECISÃO EM ALGUÉM MAIS
A conversa sobre direção é uma das partes mais difíceis do trabalho de Massimo como profissional de saúde que trabalha com pacientes com doenças neurodegenerativas, afirma. Mas ela está feliz em aliviar os cuidadores desse fardo. “Faça o papel de vilão”, lembra ela.

Muitos clientes de Waugh vêm até ela por meio de encaminhamentos de médicos de atenção primária, neurologistas ou oftalmologistas, embora os membros da família também entrem em contato diretamente. Os especialistas afirmam que avaliações profissionais de direção podem oferecer objetividade e clareza.

Recentemente, um cliente mais velho seu, que costumava ensinar educação de trânsito, ficou chateado porque sua esposa e médico insistiram para que ele parasse de dirigir. Durante a avaliação, ele teve dificuldade em concluir testes de memória de curto prazo, incluindo um simples labirinto e um exercício de contagem. Quando Waugh mostrou a ele seus resultados, ele finalmente entendeu que representava um perigo à sua própria segurança e a de outros na estrada.

TENHA AÇÕES PRÁTICAS
Embora desistir de dirigir raramente seja fácil, serviços como entregas de supermercado e aplicativos de carona podem diminuir o inconveniente de ficar sem direção e oferecer autonomia e independência aos mais velhos, explica Adams.

Elabore um plano de como você ajudará um motorista aposentado a se locomover. Além dos aplicativos de carona, os especialistas também mencionaram o transporte público e caronas solidárias, bem como amigos e familiares que possam dar caronas.

Considere estratégias de redução de risco, sugere Adams. Talvez seu parceiro ou pai esteja seguro para dirigir durante o dia, mas não à noite e nem na estrada. Mesmo que os motoristas mais velhos e seus familiares relutem em fazê-lo, olhem para o futuro.

“Faça disso parte da conversa desde cedo”, diz Cheryl Greenberg, que orienta idosos e suas famílias sobre transições de vida e planejamento na Carolina do Norte. “Você sabe, ‘você tem 60 anos e está dirigindo muito bem, mas mãe, o que você faria se sentisse menos confortável e menos capaz?'”Todos os especialistas disseram que era importante abrir espaço para discutir sentimentos em torno dessas conversas.

“Seja empático”, afirma Greenberg. “Não entre apenas e diga: ‘bem, agora você parou de dirigir.’ Ouça. Faça perguntas que possam ajudá-los a se centrar no processo.”

Fonte: Filha de São Paulo/Artigo original do The New York Times.