Eu intuí. Assim que fiquei sabendo que o nome da taça do primeiro turno do Gauchão era “Cel. Ewaldo Poeta”, alguma coisa me disse que o galardão iria acabar nas cristaleiras do Caxias. Havia algo de inusitado, singular e folclórico naquele nome. Um poeta sendo homenageado, vejam só. O ilustre cidadão também era coronel, tendo sido um histórico colaborador e torcedor do clube Farroupilha, de Pelotas. Um pitoresco personagem, enfim, pertencente ao mundo do futebol gaúcho, que faleceu em 2018.

Para alcançar o troféu de nome curioso, o Caxias não perdeu tempo. Na primeira rodada do torneio expugnou a arena gremista com gols de Tilica e Ivan. Foi uma noite em que o cordeiro vestiu a pele do lobo, mostrando que a equipe do técnico Lacerda não era tão inocente como muitos poderiam supor. A velha história, onde os depauperados times do interior costumam ser oferecidos como ovelhas no altar do sacrifício da dupla Grenal, havia sido escrita de um jeito diferente dessa vez.

Na segunda partida, o Caxias apenas empatou com o São José no Estádio Centenário, e muitos se apressaram em dizer que a atuação contra o Grêmio havia sido apenas “fogo de palha”. Mas depois vieram as boas vitórias contra Aimoré e Brasil de Pelotas, credenciando o time para a semifinal do primeiro turno, contra o Ypiranga. O time de Erechim foi um adversário duro, batido apenas nos acréscimos graças a um gol de cabeça do jovem Da Silva.

Na final, mais uma vez o Grêmio no caminho.  Um time de orçamento milionário, com estrelas do quilate de Everton, Matheus Henrique, Diego Souza e Thiago Neves em seu elenco. Sem embargo, dizem por aí que dinheiro não combina com poesia. Inspirados pelo lirismo da favela ao redor do Centenário e embriagados pela magia da sua farda cor de vinho, os onze atletas grenás assumiram a postura de poetas, trocando passes cadenciados, rimados e cheios de veneno.

Em pleno sábado de Carnaval, as fagulhas de uma festa do interior se acenderam na tarde que findava, quando, em um instante de pressão do ataque grená, Diogo Oliveira aproveitou uma indecisão da zaga gremista para empurrar o couro para o fundo das redes do goleiro Vanderlei. Delírio nas arquibancadas! A turba observa enternecida os seus combalidos guerreiros, veteranos de taciturnas e fracassadas jornadas, e que agora feriam de morte o Golias que ameaçava impedir o caminho até a glória.

Uma glória que havia sido confiscada vilãmente por uma arbitragem viciada, na partida contra o Botafogo, pela Copa do Brasil, alguns dias antes, dentro do  próprio estádio Centenário. Agora, depois de outra luta exemplar sobre a relva, o Caxias finalmente readquiriu a felicidade que era sua por direito.

Nesse instante, em que a taça já está no armário, pode parecer falso aquilo que digo. Mas a verdade é que eu intuí. Mesmo depois, quando pesquisei novamente na internet e não descobri ao certo se o cidadão Ewaldo Poeta tinha sido um poeta de fato, continuei achando que o título seria do Caxias.

Afinal, uma licença poética de vez em quando não faz mal a ninguém.

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