Caetano Silva, o popular Veludo

A sarjeta. Para a maioria dos mendigos, não se trata de uma simples constatação, ou de uma realidade palpável. Aquele pedaço de chão sujo, além de ser uma espécie de lar, é o somatório de episódios e lembranças de uma vida pregressa feita de momentos felizes e tristes. Pois cada mendigo tem a sua história, mesmo que no fim eles pareçam todos iguais, vivendo a sua rotina de imundície, ternura e esquecimento. A sarjeta, para alguns, antes de um destino inescapável e cruel, pode ser uma escolha. Uma escolha motivada por um ideal de valentia e indignação.

Depois de servir como agente colonial na Birmânia, George Orwell decidiu mergulhar no submundo das ruas de Londres e Paris. Segundo o jornalista Thomas Ricks, o gesto voluntário de Orwell surgiu de uma suposta necessidade de “autossacrifício”.  Pela lógica de Orwell, após vestir o uniforme do policial que oprimia e vigiava os habitantes de um país asiático subjugado pelo controle do Império Britânico, era preciso experimentar o outro lado da moeda. Orwell, então, viveu dias de penúria, dormindo em praças e até mesmo passando fome. De um modo pouco provável, o autor inglês se tornaria um dos escritores mais famosos do século XX.

Muitas vezes, a distância entre a fama e o esquecimento, entre o fraque da nobreza e o trapo da pobreza, é feita de meros dias e detalhes.  Em 1947 chegou ao Fluminense o goleiro Veludo. Embora o titular absoluto da meta tricolor fosse o ídolo Castilho, Veludo se tornou uma espécie de reserva de luxo, sempre substituindo Castilho com grandes atuações.

Veludo possuía uma compleição física avantajada, herança dos seus tempos de estivador. No início, as suas mãos, acostumadas com o trabalho pesado, podem ter tido alguma dificuldade no manejo do leve balão de couro. Mas o fato é que logo elas se acostumaram com o novo ofício do seu dono, capturando a bola com destreza e segurança.

Em pouco tempo Veludo se tornou uma estrela, sendo, inclusive, convocado para defender a  seleção brasileira. A coragem demonstrada por ele na partida contra o Paraguai, em 1954, jamais foi esquecida. O estádio em Assunção era algo acanhado, e a turba pressionava de todas as formas o onze canarinho. Um clima de guerra pairava no ar, pedras eram jogadas contra Veludo, e a arquibancada atrás do seu arco parecia que iria desabar, tamanha era a agitação da torcida guarani. Mas Veludo permaneceu firme, e a sua fleuma ajudou a cimentar a vitória pelo placar de 1 a 0.

Entretanto, a sorte abandonou Veludo, quando, em um Fla-Flu realizado em 1955, o tricolor sofreu uma terrível goleada. Os jogadores foram obrigados a pagar uma multa, mas a punição mais pesada recaiu sobre Veludo, que acabou negociado. Assim como ocorrera com Barbosa em 1950, Veludo foi estigmatizado, e a culpa da derrota recaiu sobre os seus ombros.  Com tristeza, ele recolheu os seus pertences da sede em Laranjeiras, e disse adeus ao aristocrático clube onde ele havia conhecido a fama.

“Quando um homem tem o rosto de cor, a suspeita é a prova”, diz o oficial inglês, personagem do romance escrito por Orwell tendo como pano de fundo a sua experiência como guarda na Birmânia. O império britânico, nos seus dias de esplendor, era uma engrenagem movida a libras e cinismo, e os seus tentáculos alcançavam boa parte do mundo.

Inclusive, o velho e violento esporte bretão conhecido como “football” foi trazido até nós por Charles Miller, no final do século XIX. No Rio de Janeiro, Oscar Cox, assim como Miller um indivíduo de ascendência inglesa, foi um dos fundadores do Fluminense. Em seus albores, além das atividades esportivas, o clube promovia vesperais de arte e poesia em seus salões, comandados pelo ilustre escritor Coelho Neto.

Após deixar o Fluminense, Veludo jogou ainda por outros clubes, sem, no entanto, conseguir se firmar. Acossado pelo alcoolismo, o outrora imponente goleiro foi aos poucos perdendo o viço e a lucidez, até ser visto mendigando nas calçadas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

George Orwell, após abandonar a sarjeta e lutar na guerra civil espanhola durante a década de 1930, acabou escrevendo dois romances que causariam um tremendo impacto até hoje: “A Revolução dos Bichos” e “1984”. Neste, o autor aborda o controle tirânico do Estado sobre o indivíduo, e o abuso de poder dor regimes totalitários.

Infelizmente para Orwell, ele não viveria para se locupletar do sucesso das suas obras. Mas muitas das suas ideias e previsões acabaram se confirmando. O olhar atento do “Grande Irmão”, descrito em “1984”, se tornou a epítome de uma realidade nefasta, em que vivemos sob constante escrutínio e assédio de governos e empresas de tecnologia. O personagem do livro de Orwell entrou até mesmo para a cultura popular, inspirando um programa de televisão onde (sub) celebridades de corpo esbelto podem ser “espionadas” dentro de uma casa pelos telespectadores.

Curiosamente, se alguém não possui beleza física, dinheiro ou fama, o que resta é apenas o ostracismo. Afinal, “big brother” nenhum quer saber o que faz o mendigo que habita os becos escuros da cidade. Oculto entre as sombras, este mendigo apenas observa, com seus olhos sujos e úmidos, o vai e vêm das pessoas que caminham absortas na tela dos seus dispendiosos telefones celulares.

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