Dentro da gaveta, luvas de seda e um segredo. A mão jovem que veste a indumentária é delicada, o seu dono gosta de roupas para mulheres, ele gosta da maciez dos tecidos, das cores e costuras. Trabalhando em uma loja de chapéus femininos, Emile era tido por todos como um bom rapaz, e é provável que fosse feliz em seu “métier”. O seu corpo atlético, no entanto, fez com que ele chamasse a atenção de pessoas ligadas ao mundo do boxe, e Emile acabou trocando as luvas de seda por aquelas de couro.

A partir de então, o mundo masculino e enfumaçado dos ringues passou a ser a sua vida. Penetrando nos labirintos sinistros do boxe, Emile foi lentamente encontrando a si mesmo. O seu estilo combinava golpes rápidos e uma postura elegante, mas ele não era o tipo de pugilista que costumava nocautear o seu oponente, as suas vitórias geralmente eram conquistadas por pontos. Em uma noite de sábado, em março de 1962, Emile estava prestes a subir no ringue outra vez. O Madison Square Garden, em Nova Iorque, era a meca do boxe. Em suas entranhas os campeões da nobre arte conheciam a glória e o crepúsculo.

O oponente de Emile seria Benny “Kid” Paret. Um rival duro, a quem ele já havia enfrentado duas vezes em disputas acirradas pela captura do cinturão da categoria dos pesos meio-médios. Um fato curioso, e que não passaria despercebido entre os jornalistas, suscitando polêmicas que duram até os dias de hoje, aconteceu antes da luta, durante a pesagem dos pugilistas.  Em determinado momento, Paret apalpou as nádegas de Emile, provocando-o com insinuações maldosas a respeito da sua orientação sexual. Embora aquilo não fosse da conta de ninguém, é provável que houvessem boatos envolvendo Emile. Na época, o tabu em torno da questão do homossexualismo limitava a liberdade, e assumir publicamente tal comportamento era considerado até mesmo crime.

Quando soou o gongo, contudo, o que se viu foi uma luta limpa, com Emile dominando a fase inicial das ações. No sexto assalto Paret derrubou Emile, mas este conseguiu reunir forças para levantar antes que o juiz contasse até dez. A partir de então, Emile tomou novamente as rédeas da luta. Segundo o famoso jornalista Norman Mailer, que assistiu a luta nas primeiras filas da plateia, havia uma espécie de fúria incontrolável em Emile. No décimo segundo assalto, Emile encurralou Paret no canto do ringue, fustigando o rival insensivelmente. Paret, apesar de se manter em pé, baixou a guarda e não esboçava reação. Foram momentos de apreensão, até que, finalmente, o juiz Ruby Goldstein interveio, afastando Emile e pondo fim ao combate.

Após um instante de alegria, Emile observa Paret desfalecido sobre a lona, auxiliares e um médico ao seu redor. Confuso, o novo campeão tenta se aproximar do oponente para cumprimentá-lo. A vida, no entanto, entre os urros da multidão e diante das câmeras da televisão que transmitia o evento ao vivo, já começava a deixar o corpo surrado de Paret. Levado a um hospital, o atleta cubano permaneceu alguns dias em coma, até falecer.

A partir daquela noite, o esporte conhecido como a “doce ciência” do boxe sofreu um sério revés junto à opinião pública norte-americana. Embora mortes sobre o ringue não fossem exatamente algo raro, os fatos ocorridos no Madison Square Garden ressuscitaram velhos dilemas morais relativos ao boxe, precipitando a sua saída de cena como um espetáculo digno de ser visto em um ambiente familiar. As transmissões ao vivo pela televisão foram banidas do horário nobre, configurando uma espécie de canto de cisne daquela prática brutal. O próprio Mailer, um sincero fã do esporte, confessou ter se desiludido após aquela noite. Mas, segundo ele, o boxe não seria proibido em seu país e nem desapareceria por completo, tendo em vista a sua conveniência econômica para as elites, e a aceitação destas em relação a violência, sob o pretexto de que ela seria “um elemento indispensável da vida”.

Posteriormente, Emile sustentou que os insultos de Paret antes da luta em nada influenciaram o seu comportamento sobre o ringue. Por ouro lado, o boxeador nascido nas Ilhas Virgens afirmou em suas memórias que a mesma sociedade que (de uma certa forma) o perdoara por matar um homem, continuava a execrá-lo pelo fato de amar um homem.

O transformista pernambucano João Francisco dos Santos, o popular Madame Satã, foi outro personagem ambíguo, prova de que a mão suave que acaricia é a mesma que golpeia. Na Lapa, bairro de boêmios e malandros, Madame Satã encontrou na truculência dos seus punhos e da sua navalha um contraponto ideal para as suas fantasias de plumas e paetês. Capoeirista, temido pela sua valentia e destreza, além de habilidoso como ator, Madame Satã acabou excluído, ainda mais depois que o jovem cometeu pequenos crimes, e até supostos homicídios. O fato de João ser um travesti em nada ajudou para que ele encontrasse melhores oportunidades de trabalho e uma consequente saída do mundo da contravenção.

Se pararmos para pensar, o fardo carregado pelos homossexuais deveria ser carregado por todos nós. Afinal, como bem disse uma vez certo professor meu, todos nós somos ou seremos, em algum momento, “outsiders” nessa vida. O abuso verbal e o preconceito sofridos na pele por Emile Griffith e Madame Satã encontram reflexo na maneira como são discriminados diariamente os negros, os imigrantes, os índios, os gordos, os nerds, as mulheres, os gagos, os bêbados, os caretas, os crentes, os pobres, os judeus, os orientais, os solitários, os tímidos e os fracassados. Será que eu e você, se colocarmos a mão na consciência, podemos nos alienar de todos os rótulos e debilidades?

Enquanto Emile Griffith recebia os louros da vitória na fatídica noite do Madison Square Garden,  ao mesmo tempo ele recebia a visita do fantasma que iria assombrá-lo pelo resto da vida. Benny Paret permaneceu habitando os pesadelos mais profundos de Emile, lembrando a forma terrível como ambos haviam se tornado vítimas do ódio e da indiferença que estão nos corações e mentes, nos campos e nas cidades, no passado e no presente.

E, embora o mundo tenha conhecido a derrota do esporte, do encanto, da humanidade e da razão, naquela noite a vitória de Emile representou, ainda que por linhas tortas, a vitória da justiça. A triste e inesperada justiça dos fracos e oprimidos.

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