A cadeira

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Estamos em 1979, e Frank Sinatra comemora 40 anos de carreira em um evento de gala no Caesars Palace, em Las Vegas. Celebridades do mundo do “show business” se revezam sobre o palco, cantando, dançando, dividindo lembranças e dando seus depoimentos sobre a importância e as dificuldades da carreira musical de Sinatra. Em um dos pontos altos da noite, Red Skelton, totalmente só em frente à ribalta, mesmeriza a plateia. Para compor o seu breve espetáculo, o veterano comediante precisa de apenas dois objetos: um chapéu e uma cadeira.  Sentado na cadeira, Red faz mímicas, imitando uma senhora desastrada dirigindo um carro. Em sua mesa, Sinatra quase chora de tanto rir, arrebatado pelo talento do velho amigo.

Muitas vezes, um simples objeto pode fazer toda a diferença para o ator, na hora nua e excruciante em que ele desempenha a sua interpretação cênica. Estrelando a peça “Traga-me a cabeça de Lima Barreto”, Hilton Cobra, em dado momento, utiliza uma cadeira para compor o seu monólogo. Ao mesmo tempo em que recita o texto, o ator realiza uma espécie de contorcionismo sobre a cadeira, realçando o teor angustiante da peça e da vida do nosso grande escritor.

Em seu tempo, Lima Barreto não pôde desfrutar do reconhecimento que hoje lhe é creditado. Militando de um modo quixotesco dentro dos inexpugnáveis labirintos do mundo literário, Lima colheu apenas migalhas, padecendo no limbo da indiferença imposto pela elite das letras e pela própria sociedade. De fato, Lima ansiava por uma vaga na Academia Brasileira de Letras, para a qual se candidatou, em 1917. Mas o jogo de cena da intelectualidade de então não era algo condizente com a condição social de Lima, e as suas nádegas jamais ocupariam a cadeira tão sonhada.

Enquanto almejava penetrar nos salões aristocráticos da ABL, Lima criticava duramente aquilo que considerava uma prática obscena, nascida no seio da burguesia, e que tinha como protagonistas uma “malta de desordeiros”. O futebol, para Lima, era acima de tudo um fator de dissensão social, além de um esporte bruto, inútil e vulgar. Infelizmente para o autor de “Clara dos Anjos”, o jogo importado da Inglaterra encontrou terreno fértil em solo brasileiro, forjando ídolos e paixões avassaladoras.

Muitos anos haviam se passado desde o desaparecimento de Lima Barreto, quando um novo e singular personagem entrou em cena. Garrincha, ponteiro direito do Botafogo, possuía o gênio criativo dos grandes artistas. Intuitivo e escorregadio, Garrincha era capaz de aplicar dribles desconcertantes, reduzindo o mais varonil zagueiro a um mero fantoche. Para o técnico Zezé Moreira, contudo, o craque pecava pelo excesso de individualismo em suas jogadas.

Em determinado treino, Zezé tentou domar o gênio algo infantil e histriônico de Garrincha. Após posicionar uma cadeira sobre a relva, como se fosse um marcador imaginário, o técnico pediu para que o jovem, apenas passasse pelo escolho, cruzasse a bola em direção ao centro da área. Mas simplificar não era algo possível para Garrincha. Com sua habitual desfaçatez, o atacante rolou a bola sutilmente entre as pernas da cadeira, contrariando de modo categórico as intenções do seu chefe.

Como podemos ver, a comédia e a tragédia da vida muitas vezes se misturam. Assim como Lima Barreto, Garrincha terminou seus dias refém do alcoolismo.  No teatro dos seus dias, a pena e a bola foram valiosas companheiras, aplacando a solidão de cada um, até que a última cortina se fechasse.

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