
Morreu nesta segunda-feira (19), aos 93 anos, Valentino Garavani, um dos maiores nomes da alta costura italiana. A informação foi divulgada pela fundação que administrava com o empresário Giancarlo Giammetti, com quem criou a grife que leva seu nome.
“Valentino Garavani morreu hoje, com serenidade, em sua residência em Roma, cercado pelo afeto de seus entes queridos”, diz o comunicado enviado à imprensa. Detalhes sobre a causa da morte não foram informados.

O velório do estilista está marcado para esta quarta e quinta-feira, dias 21 e 22, na Piazza Mignanelli, na capital italiana. O funeral acontece na sexta-feira (23), na Basílica de Santa Maria degli Angeli e dei Martiri, na mesma cidade.
Desde então, vestiu alguns dos maiores ícones fashion da segunda metade do século passado, como Audrey Hepburn, Gisele Bündchen e Naomi Campbell.

O último dos grandes costureiros do século 20, foi um estilista que definiu a imagem da realeza em uma era republicana para todo tipo de princesas —coroadas, depostas, de Hollywood e da sociedade.
Apelidado de “o último imperador” em um documentário de mesmo nome lançado em 2008 e “o Sheik do chique” por John Fairchild, ex-editor da Women’s Wear Daily, Garavani fundou sua empresa homônima em 1959. Durante o meio século seguinte, ele não apenas vestiu um mundo de nobres, mas tornou-se igual a eles, com seus próprios palácios, corte itinerante e tom característico de vermelho.
“Na Itália, existe o Papa —e existe Valentino”, disse Walter Veltroni, então prefeito de Roma, em um perfil do estilista publicado na The New Yorker em 2005.
Perpetuamente bronzeado em um tom profundo de mogno, com o cabelo secado a jato até a perfeição imóvel, quase sempre referido pelo primeiro nome (ou pelo título honorífico “Sr. Valentino”) e seguido por um séquito de pessoas e pugs, Garavani criou e vendeu uma imagem de alto glamour que ajudou a definir o estilo italiano por gerações.
Seu negócio surgiu pouco antes da era de “La Dolce Vita”, e ele foi implacável em sua lealdade a esse ideal. “Eu sempre busco a beleza, a beleza”, disse ele ao apresentador Charlie Rose em uma entrevista em 2009. Ele não era o estilista-como-artista-atormentado, mas sim o estilista como disciplinado-bon-vivant. Ele não se importava em estabelecer tendências, captar o zeitgeist ou estar na vanguarda.
“É muito, muito simples”, disse ele ao New York Times em 2007. “Eu tento fazer minhas garotas parecerem sensacionais.”
Ele fez o vestido de renda creme que Jacqueline Kennedy usou em seu casamento com Aristóteles Onassis em 1968, o terno com gola de zibelina que Farah Diba usou para fugir do Irã quando seu marido, o xá, foi deposto em 1979, e o vestido que Bernadette Chirac usou quando seu marido Jacques tomou posse como presidente da França em 1995.
Também: a coluna drapeada com barra de penas que Elizabeth Taylor usou na estreia romana de “Spartacus” em 1960, o vestido preto e branco que Julia Roberts usou quando ganhou o Oscar de melhor atriz em 2001 e a confecção de tafetá de seda amarela de um ombro só que Cate Blanchett usou quando ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante em 2005.

No processo, ele —e seu sócio e associado mais próximo, Giancarlo Giammetti— também garantiram à moda italiana um lugar no círculo íntimo dos ateliês de alta-costura parisienses, abrindo caminho para marcas italianas que vieram depois, como Armani e Versace, construíram uma fortuna em licenças e se tornaram a primeira marca de estilista cotada na bolsa de valores de Milão. E ele alcançou aquela coisa rara na moda: uma transição suave para longe das passarelas.
Algumas pessoas trabalham tanto que ficam “torturadas”, como ele colocou em um livro de história oral de sua vida, uma edição limitada de 19 quilos publicada pela Taschen em 2007. “Eu não sou torturado. Sinto muito. Eu não estou sofrendo. Quero ser feliz quando desenho um vestido.”
Mesmo depois de deixar sua marca, Valentino continuou a fazer vestidos de noiva sob encomenda para mulheres como Anne Hathaway e a princesa Madeleine da Suécia; flertou com a ópera ao criar os figurinos para uma produção de “La Traviata” em Roma, em 2016; e se lançou como um guru do bem-viver, publicando um livro que misturava receitas e mesa posta, com menus e arranjos pensados para suas cinco casas ao redor do mundo (e para seu iate).
“Ele definiu o barômetro do luxo”, disse Reinaldo Herrera, marido da estilista Carolina Herrera e amigo do sr. Garavani, no livro.
A obra foi lançada logo após a extravagância do 45º aniversário da Valentino, uma celebração de três dias da empresa planejada por Giancarlo Giammetti, Walter Veltroni e o Ministério da Cultura da Itália — uma festa tão entrelaçada à mitologia de Roma que a implicação era, como disse Giammetti, que Garavani havia se tornado um “poder de Estado”.
Projetando uma vida
Valentino Clemente Ludovico Garavani nasceu em 11 de maio de 1932, em Voghera, uma pequena cidade ao sul de Milão, filho de Teresa e Mauro Garavani. O pai era dono de uma empresa de material elétrico.
Valentino cresceu muito próximo da irmã mais velha, Wanda, que mais tarde trabalhou em seu negócio e morreu em 1997, deixando dois filhos. Suas afinidades estéticas apareceram cedo: ainda criança, pediu talheres e louças próprias. Adolescente, solicitava que seus suéteres fossem feitos sob medida para poder escolher cores e padrões, e trocava os botões dos blazers. Decidiu ser estilista depois de assistir ao musical da MGM “Ziegfeld Girl”, de 1941, com seus figurinos extravagantes, embora só tenha contado aos pais aos 17 anos.
Apoiando o objetivo do filho, eles organizaram seus estudos de moda em Milão; seis meses depois, mudou-se para Paris para frequentar a École de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne.
“Parti no Dia de Reis de 1950, com minha família convencida de que Paris significava fogo do inferno e danação”, disse ele em um discurso em 2015, em sua cidade natal.
Após se formar, passou cinco anos trabalhando com Jean Dessès, estilista conhecido por vestir a rainha da Grécia. Garavani contou que foi demitido em 1957 por passar tempo demais na praia em Saint-Tropez, mas logo seguiu para trabalhar com Guy Laroche. Dois anos depois, decidiu voltar a Roma para abrir seu próprio ateliê —financiado pelo pai e por alguns amigos dele— na elegante Via dei Condotti.
Certa noite de 1960, pouco depois de se estabelecer em Roma, estava em um restaurante lotado na Via Veneto quando amigos pediram para dividir a mesa com outro jovem, Giancarlo Giammetti, então estudante do segundo ano de arquitetura. Assim começou a relação que moldaria sua vida e seu negócio.
Eles se tornaram amigos —e, por um período, amantes— e pouco depois Giammetti abandonou a faculdade e passou a trabalhar com Garavani, ajudando-o a evitar uma falência precoce e a abrir caminho para o sucesso global. Se Garavani aspirava ser o rei da alta-costura romana, Giammetti era seu primeiro-ministro, protegendo e viabilizando sua visão particular de elegância.
“Eu nunca cuidei de nenhum negócio na minha vida”, disse Garavani a John Rose. Essa sempre foi a função de Giammetti. Garavani, por sua vez, concentrou-se em desenvolver seu estilo como designer, que descreveu em 2007 assim: “Vestidos de coquetel muito bonitos. Vestidos de noite muito glamourosos. Vestidos vermelhos bem pequenos. Glamour. Glamour. Glamour.”
Para ele, o babado bem escolhido e o laço perfeitamente colocado eram os blocos de construção de um império.
O nascimento de um estilo
Também o era o vestido vermelho, que se tornou sua marca registrada a partir de 1959. Funcionava como um ponto final em cada coleção, inspirado por uma visão casual de mulheres vestidas de vermelho na estreia da ópera “Carmen”, em Barcelona, no início de sua carreira, quando percebeu como o carmim as destacava na multidão.
A partir dali, disse Garavani, decidiu: “O vermelho será minha cor da sorte”. É, como afirmou certa vez, “uma marca indelével, um logotipo, um elemento icônico da grife, um valor”.
O grande momento veio em 1962, quando foi convidado a desfilar no Palazzo Pitti, em Florença, então o centro da moda italiana. Tornou-se favorito das grandes socialites —Marella Agnelli, Babe Paley, Gloria Guinness— e, em 1964, pouco depois do assassinato do marido, conheceu Jacqueline Kennedy, cujo apoio o projetou para a fama mundial.
Em 1968, criou uma coleção inteiramente branca que repercutiu no mundo da moda e lhe rendeu o favor de Diana Vreeland, a poderosa editora. Em 1975, transferiu seu desfile de prêt-à-porter para Paris. Lançou seu primeiro perfume —simplesmente chamado Valentino— em 1978 e, no ano seguinte, começou a licenciar seu nome para bolsas, malas, guarda-chuvas e lenços (além de, no Japão, isqueiros e canetas). No auge, segundo Giammetti, a Valentino tinha cerca de 42 licenças. Em 1984, a equipe olímpica italiana vestiu Valentino nos Jogos de Los Angeles, e no ano seguinte o presidente Sandro Pertini o nomeou Grande Oficial da Ordem do Mérito da República Italiana.
Foram os anos de expansão. Os anos 1990, porém, foram difíceis, com a ascensão do grunge e do minimalismo —duas palavras que Valentino jamais aceitaria. “Não consigo ver mulheres destruídas, despenteadas ou estranhas”, disse à Vanity Fair em 2004. As críticas apontavam que ele ignorava a busca por conforto e a democratização da moda —recusando-se a lidar com as complexidades e até feiuras dos tempos modernos.
“Ele consegue criar um mundo ao redor de si e só deixa entrar o que quer”, disse Bruce Hoeksema, companheiro de Valentino desde 1982, no livro. “Um problema? Ele simplesmente age como se não existisse.”
Hoeksema completou: “Ele constrói esse ambiente onde tudo é perfeito e se permite viver dentro dele, o que ele precisa para ser criativo.”
Ao fazer isso, também sobreviveu ao seu tempo. Em 1998, Giammetti e Garavani venderam a empresa ao conglomerado industrial HdP por cerca de US$ 300 milhões; os grandes grupos de luxo, como LVMH e Gucci Group, haviam surgido, e competir como independente tornara-se quase impossível.
Seguiu-se um vaivém de proprietários: quatro anos depois, a HdP vendeu a Valentino para a Marzotto, fabricante têxtil familiar, que em 2005 a desmembrou como Valentino Fashion Group (Garavani esteve na Bolsa de Milão para tocar o sino de abertura). Em 2007, um ano após Garavani receber a Legião de Honra francesa — agradecendo a Giammetti, que se emocionou na cerimônia—, o fundo Permira comprou a participação majoritária da empresa.
Giammetti aproveitou a transição para conceber a gala dos 45 anos; dirigentes da Permira, pouco habituados aos excessos do mundo da moda, teriam ficado chocados com um custo estimado em US$ 10 milhões.
A celebração incluiu um jantar no Templo de Vênus e Roma, com vista para o Coliseu, banhado em luz vermelha e dourada; um desfile no complexo da igreja de Santo Spirito in Sassia, perto da Praça de São Pedro, seguido de jantar para mil convidados na Galleria Borghese; e uma exposição da obra de Garavani no Museu do Ara Pacis, que abriga o antigo altar dedicado ao imperador Augusto.
Foi quando a revista Glamour declarou Garavani “o romano mais importante da moda desde quem quer que tenha inventado a toga”. Seis meses depois, após seu último desfile de alta-costura, ele se aposentou.
“Eu já tinha feito o suficiente”, disse Garavani. “Não queria fazer parte de um sistema que não é tanto sobre desenhar, mas sobre administrar empresas, dinheiro, conglomerados. Por que eu precisaria passar por isso? Eu já tinha tudo na minha vida.”
Uma vida régia
O que exatamente essa vida continha foi revelado no documentário de 2008 dirigido pelo jornalista Matt Tyrnauer, que transformou o estilista (junto com Giammetti) em um fenômeno da cultura pop. Embora os dois tenham odiado o filme ao vê-lo pela primeira vez —acharam que falava pouco dos vestidos e era pessoal demais, especialmente uma cena clássica no banco de trás de uma limusine em que Giammetti diz a Garavani que ele está “bronzeado demais”—, ao humanizá-los o filme também consagrou um modo de vida que a industrialização da moda tornava rapidamente obsoleto.
“Iates, casas, pinturas, recepções, castelos — nenhum outro estilista vive assim”, disse John Fairchild no livro. “Valentino está em uma categoria à parte. Ele sobrevive a todos.”
Embora Garavani e Giammetti tenham encerrado o relacionamento amoroso após 12 anos, permaneceram parceiros em todos os outros sentidos. Em “Valentino: The Last Emperor”, Giammetti estimou que eles passaram apenas dois meses separados em quase 60 anos de amizade. Tinham gostos semelhantes por ternos e casacos com acabamento de chinchila e um entendimento mútuo que parecia existir em nível quase celular.

Aposentaram-se ao mesmo tempo, em 2008, e após um breve período com uma estilista trazida para a empresa, Alessandra Facchinetti, o legado de Garavani foi assumido por seus antigos designers de acessórios, Pierpaolo Piccioli e Maria Grazia Chiuri. (Em 2016, Chiuri saiu, Piccioli tornou-se diretor criativo único; ele deixou o cargo em 2024 e foi substituído por Alessandro Michele.) Garavani passou a dedicar-se às outras grandes obras de sua vida: a vida social e suas casas.
Uma equipe de 50 pessoas cuidava de suas cinco casas ao redor do mundo: sua residência em Londres, uma mansão do século 19 em Holland Park com uma sala de café da manhã com 200 pratos Meissen (ele colecionava porcelana); uma villa na Via Ápia em Roma repleta de tapetes Aubusson e porcelana chinesa; um apartamento em Manhattan com vista para a Coleção Frick; o Chalet Gifferhorn em Gstaad, Suíça; e seu favorito, o Château de Wideville nos arredores de Paris, antiga residência da amante de Luís XIV, Louise de La Vallière, que ele comprou em 1995 e passou cinco anos restaurando e que era famoso por seus 280 acres de jardins, amplos gramados bem cuidados e homens de terno rastejando os seixos brancos nos caminhos durante todo o dia. Ele também tinha um iate de 152 pés, o T.M. Blue One, batizado por Sophia Loren e nomeado com as iniciais de seus pais, com interiores projetados por Peter Marino.
Ele se mudava de uma casa para outra conforme as estações e a cena cultural, frequentemente acompanhado por uma comitiva construída em torno de um núcleo formado por Sr. Giammetti; Sr. Hoeksema; Carlos Souza, um brasileiro que cuidou das relações públicas de Valentino por anos; a ex-esposa do Sr. Souza e seus dois filhos —e um quinteto de pugs, todos com nomes começando com a letra M (Monty, Milton, Maude, Molly e Margot) e todos com coleiras Goyard e seus próprios rituais matinais de beleza.
A Mayhoola for Investments, um fundo catari, comprou a empresa Valentino em 2012 (e posteriormente vendeu uma participação para a Kering, o conglomerado de luxo francês). Até seus últimos anos, quando parou de aparecer em público, o criador da marca continuou a comparecer aos seus desfiles de alta-costura e prêt-à-porter, sorrindo majestosamente da primeira fila.
“Espero ser lembrado como um homem que buscou a beleza onde quer que pudesse”, disse ele à The New Yorker. Para ele, a beleza era uma ferramenta de poder, e ele a usava com a glória dourada de uma coroa.
Fonte: Folha de São Paulo