Não vivemos no período mais excitante da história da humanidade, é verdade. Incertezas cotidianas, formas de intimidade com as quais nos habituamos estão fora de cogitação durante o isolamento. Mas é verdade também que a privação de contato físico tem sobrecarregado libidos. Neste período não há muita matemática: é tão normal afastar o sexo completamente dos seus pensamentos quanto, na solidão da reclusão, só pensar nisso.

Para aliviar a tensão sob a qual passamos a maior parte das horas e manter todos protegidos, lideranças de saúde em vários países têm lançado cartilhas com recomendações para manutenção das expressões sexuais consideradas seguras em uma pandemia. Para parceiros juntos em quarentena, deve-se evitar novos participantes desconhecidos. Em relação aos solteiros, a recomendação mais forte é de sexo virtual e masturbação.

“Você é seu parceiro sexual mais seguro” é o que dizem documentos como o emitido pelo Departamento de Saúde da Cidade de Nova York e os dos governos argentino e colombiano. Há quem diga (com respaldo científico) que a prática solitária, além de ser inofensiva para a saúde coletiva, libera endorfina e ajuda a aliviar o estresse. Por isso pode ser um bom combate aos males do confinamento.

Mas para que homens e mulheres pudessem se beneficiar igualmente da endorfina contida nessas cartilhas, muitas mulheres trabalharam (e continuam trabalhando) para disseminar, especialmente entre a população feminina, autoconhecimento e masturbação.

“As mulheres estão sujeitas a diferenças de cultura e religião há tanto tempo que é apenas recentemente que o prazer sexual está sendo libertado do tabu”, disse à revista Vice Lydia Deniller, fundadora da plataforma de vídeos OMG Yes. O projeto nasceu da sua vontade de desfazer a ideia de que os corpos das mulheres são entidades desconhecidas e desobstruir o diálogo sobre prazer feminino.

No Brasil, mais da metade das mulheres têm dificuldade para atingir o clímax, segundo uma pesquisa de 2016 do ProSex (Projeto Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas). E cerca de 40% delas não se masturbam. Mulheres heterossexuais também são o grupo que chega menos vezes ao clímax durante as relações sexuais segundo um estudo americano publicado na revista Archives of Sexual Behavior, em 2019.

Para que cada um seja de fato seu parceiro mais seguro (e efetivo), as mulheres a seguir desenvolveram técnicas — em grupo, individualmente, pela internet ou de modo presencial. Algumas têm script, outras se baseiam no desenrolar dos encontros.

No ritmo das guitarras elétricas
Uma das mais conhecidas educadoras sexuais é Betty Dodson, missionária da masturbação feminina e autora do best-seller “Sex For One”, publicado em 1973. O livro abriu caminhos para a trilha da libertação sexual das mulheres, junto com os cursos de body sex e falas públicas que ministrava sobre o uso correto de vibradores, que chocaram a sociedade americana na época.

“O instinto me disse que mobilidade sexual é o mesmo que mobilidade social. Os homens tinham isso, mas as mulheres não”, escreveu Dodson em uma de suas memórias. Ainda hoje, aos 90 anos, ela se dedica a ensinar mulheres de todas as idades a sentir prazer, primeiro sozinhas. Recentemente, voltou aos holofotes depois da participação na série “The Goop Lab”, projeto documental da atriz americana Gwyneth Paltrow.

Aos 90 anos, ela ainda detém o posto de guru da masturbação. Junto com a sócia, Carlin Ross, retomou há alguns anos seus cursos, que estão com turmas esgotadas até o segundo semestre de 2020.

As oficinas são ministradas em grupo, agora de maneira remota. Trata-se de uma aula prática sobre a genitália, em que participantes observam suas intimidades em frente a um espelho, seguida de masturbação coletiva. Um dos métodos patenteados por Dodson — e que a tornaram conhecida — é a chamada técnica rock’n’roll, que inclui massagem na vulva, exercícios de respiração, um vibrador para o clitóris e penetração com seu artefato mais característico, um halteres vaginal.

A educadora agora atrai também uma audiência mais nova, criada com maior acesso à informação sobre a sexualidade da mulher e o direito ao prazer. Mesmo assim, Dodson não acredita que as jovens feministas sejam tão libertas assim. “Em geral vêm garotas entre 30 e 50 anos. Muitas nunca se tocaram em sua vida“, disse ao El País. “Vejo como a próxima onda do feminismo será baseada na sexualidade e no orgasmo feminino. E isso irá mudar a energia do universo.”

A sexualidade positiva
A Casa Prazerela é um núcleo de sexualidade dedicado exclusivamente à mulher. Um dos carros-chefe da casa, fundada pela psicanalista paulistana Mariana Stock, é a chamada terapia orgástica. Um processo individual de consciência corporal e descoberta da potência vital e sexual, que tem a ver com entender o caráter multissensorial dos corpos. Segundo a fundadora, que deixou a carreira como executiva de marketing para focar no prazer feminino, o orgasmo não é uma entidade monolítica: a mulher tem uma variedade de potências e jeitos diferentes de senti-lo, embora muitas ainda não conheçam nenhum deles.

“Falar de sexualidade feminina não é só falar de saúde pública, é falar de uma revolução. Quando as mulheres encontram esse lugar de ter orgasmos múltiplos, se satisfazer com seu corpo, deixam de ser reféns de critérios sociais de aceitação. O que a sociedade diz é ‘seja magra, doce, submissa’. Ninguém fala ‘goze’. Porque não há interesse dessa sociedade patriarcal, que reduz prazer ao consumo, de que a mulher tenha esse regozijo tão legítimo que é o gozo”, diz Mariana.

As sessões da terapia orgástica têm, em média, duas horas, e começam com uma conversa entre paciente e terapeuta. A ideia é que o desenvolvimento da experiência se adapte à biografia de cada cliente, por isso não há um roteiro preestabelecido. O segundo processo é a exploração do próprio corpo, que tem auxílio de música, óleos, e acessórios. Há outros cursos na casa voltados para autoconhecimento e estimulação, individual ou em conjunto, além de módulos à distância.

Durante a pandemia, a Casa foi fechada, mas conta com um serviço virtual de sessões pedagógicas da chamada sexualidade positiva. Com duração de até duas horas no Skype, o encontro é individual e conta com terapeutas munidas de escuta e materiais para ajudar em explicações sobre anatomia e fisiologia do corpo. Cada sessão tem o valor de R$300. A equipe também programa novos cursos e projetos remotos para o início de junho.

Saga compartilhada
Em 2017, a humorista americana Remy Kassimir completou 28 anos sem nunca ter vivido um orgasmo. Diante de tamanha insatisfação, ela descreve, fez o que qualquer pessoa neste momento faria: um podcast para descobrir com entrevistados e ouvintes como chegar lá. O programa já tem duas temporadas e aborda diversos assuntos ligados ao prazer feminino, aos tabus e à desinformação sobre a sexualidade. Além, é claro, de dicas e relatos de como chegar ao sonhado clímax. Um spoiler: ela conseguiu.

A cada episódio, Kassimir entrevista especialistas, pesquisadores e profissionais ligados ao sexo e convidadas que contam suas experiências sobre o primeiro orgasmo. “Hoje é diferente do que foi nos dias de [revista] Cosmopolitan, que tinha uma linguagem como ‘assim é que se faz. Aqui estão cinco instruções’.

Aprendemos com os convidados do podcast que cada primeira vez é diferente da outra. Uma delas disse que se alguém toca seus mamilos, ela vai gozar. Eu não sabia que as pessoas tinham esses pontos sensíveis. Você não pode dizer às pessoas como ter prazer porque elas fisicamente não se sentem como você”, escreveu a humorista no site The Outline.

Uma plataforma, 2 mil professoras
Os americanos Lydia Daniller e Rob Perkins, “uma lésbica e um hétero”, como se definem, foram colegas na Universidade da Califórnia nos anos 1990, onde discussões sobre sexo não eram atípicas, mas ainda cheias de tabus relacionados ao prazer sexual feminino, inclusive no meio acadêmico.

Anos depois, decidiram contribuir para resolver o problema da ausência de informações científicas nessa área criando uma pesquisa e, junto com a Universidade de Indiana, trabalharam em um estudo de representatividade nacional sobre nuances da sexualidade de mulheres. Foram 2 mil entrevistadas, entre 18 a 94 anos, contando sobre suas estratégias de prazer.

A dupla percebeu que algumas formas de estimulação apareciam com certa frequência, como os movimentos circulares, em diferentes níveis de pressão e localização, ou toques “surpresa”, que desafiam a expectativa e por isso aumentam o prazer. Lydia, fotógrafa, e Rob, ligado à comunicação e estratégia digital, decidiram fundar a plataforma de vídeos OMG Yes, que ensina uma variedade de técnicas de masturbação de uma maneira bastante imagética.

A primeira temporada reúne 12 categorias diferentes que agrupam ensinamentos sobre intensidade, tipo de movimento, ritmo, entre outros aspectos. Quem ensina essas técnicas são mulheres de carne e osso e mãos à obra, mostrando passo a passo o que fazer para chegar lá. O acesso ao conteúdo custa US$ 25.

Há também uma seção de vídeos interativos para praticar as técnicas ensinadas. Seu celular ou tablet faz as vezes de uma vulva virtual, realística e falante com a qual você praticará por meio do touchscreen. E ela é exigente: reclama se você pára no meio e dá feedbacks sobre o desempenho dos seus dedos. Também há dicas para o que pode ser melhorado.

O sucesso da plataforma, que tem também uma parcela de usuários homens, gerou uma segunda temporada e uma nova pesquisa, agora com cerca de 20 mil mulheres. O novo conteúdo é dedicado a questões mais internas, digamos, como penetração, ponto G e ejaculação feminina, e está sendo traduzido para o português.

Bons modos para mulheres
Finishing school é um antigo termo usado para definir as escolas que se ocupavam em ensinar etiquetas e ritos das classes altas para as meninas que se preparavam para integrar a alta sociedade em países da Europa e nos Estados Unidos.

Nesta Finishing School, inventada pela psicoterapeuta americana Vanessa Marin, o curso é um pouco diferente. E não é só porque é na internet. Trata-se de uma escola online para ensinar mulheres consciência corporal, técnicas de masturbação e métodos para superar a insegurança e a vergonha de seus corpos. O curso tem 14 semanas, cada uma delas com workshops em áudio, exercícios e práticas guiadas. Um planejamento estratégico bastante detalhado, quase como uma batalha naval da vulva.

Marin é terapeuta sexual há mais de uma década e criou a instituição para reduzir o desequilíbrio de taxas de orgasmos entre homens e mulheres e facilitar que mais mulheres chegassem pela primeira vez ao clímax. Para quem já venceu os módulos básicos, a formação tem sequência com técnicas mais avançadas, tanto para a prática sozinha como acompanhada.

Sob o olhar do tantra
O tantra é uma filosofia comportamental, de origem indiana, que explora o desenvolvimento do ser humano de maneira integral: física, mental e espiritualmente. Entre os temas trabalhados, como a alimentação, a saúde e a cultura, há também ensinamentos ligados à prática sexual e sua energia vital. Essa ala se popularizou muito no Brasil, sobretudo por meio de centros e workshops de práticas voltadas para a melhora da satisfação sexual que se ampliaram no país nos anos 1990.

Um dos cursos conhecidos que hoje adota a abordagem tântrica para abrir caminhos ao prazer feminino é o I Love My Pussy, ministrado pela paulistana e especialista em tantra Carol Teixeira. “Vejo que muitas mulheres já estão empoderadas na mente, e meu objetivo é trazer isso para o corpo”, diz.

O curso é uma imersão de um dia inteiro, em que entre 60 e 80 mulheres se dedicam a desconstruir crenças vinculadas à sexualidade, expurgar os gritos presos na garganta e externalizar traumas para, em seguida, aprender sobre o tantra. Na última etapa, as participantes são ensinadas coletivamente a despertar a energia sexual por meio do toque e do contato com vibradores.

Segundo a terapeuta, a sexualidade é um dos meios de ativar a chamada kundalini, energia que representa a força criativa e vital na filosofia tântrica. A abordagem de Teixeira não é somente voltada para a sexualidade, mas para quem procura um olhar integral para o universo feminino vinculado a aspectos espirituais e energéticos.

Os encontros presenciais estão suspensos, mas é possível conhecer o tantra durante a pandemia: Carol Teixeira tem disponibilizado alguns de seus ensinamentos sobre sexo e relações em seu perfil no Instagram e também no YouTube. E inaugurou o curso online semanal Shaktis Tântricas, para quem quer se aprofundar nessa área de conhecimento.

Fonte: Gama / Foto: Reprodução Internet

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