A Biblioteca Pública Municipal Miguel Cané, situada no bairro de Boedo, em Buenos Aires, contava, no final dos anos 1930, com um funcionário especial. Trabalhando como auxiliar e catalogador, Jorge Luís Borges tinha no seu ofício muito mais do que um ganha pão. “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”, disse, certa vez, o poeta e escritor. Estando entre os livros, Borges realizava o sonho de unir o útil ao agradável. Anos mais tarde, quando assumiu o posto de diretor da Biblioteca Nacional de seu país, Borges, que havia sido afastado da labuta de catalogador em razão da chegada de Perón ao poder, pôde voltar ao ambiente que ele tanto amava. Estamos em 1955, e Borges, ao mesmo tempo em que exulta entre os livros dispostos nas estantes, é obrigado a conviver com o fantasma da cegueira. Tateando pelos corredores da biblioteca, Borges acaricia as lombadas das obras como quem acaricia um animal de estimação. Um vasto universo do conhecimento humano registrado nas páginas de milhares de volumes, e que agora estava sob sua responsabilidade. Em seu mandato, foi realizada a construção de um novo prédio para abrigar o fabuloso acervo da instituição, uma providência necessária e que Borges levou a cabo com competência e determinação.

Entre as almas caridosas que abraçaram a tarefa de ler para Borges estava o então jovem Alberto Manguel. Essa rica experiência ajudou a moldar o futuro de um novo e talentoso escritor, tendo em vista a proeminência alcançada por Manguel no mundo das letras. Coincidência ou não, Manguel detém hoje o posto que um dia foi de Borges, ou seja, o de diretor da Biblioteca Nacional do país vizinho. Em artigo escrito para o jornal The New York Times, em 2015, Manguel analisa o contexto no qual a biblioteca está inserida no mundo atual.  Para ele o papel da biblioteca encontra-se um tanto quanto desvirtuado, de modo que ela acabou se tornando, em certos casos, mais procurada em razão de serviços ou circunstâncias que fogem à prática pura e simples da leitura de uma obra literária. Especialmente no que se refere ao ambiente das bibliotecas públicas, é provável que boa parte da sua clientela seja composta por cidadãos desempregados em busca de confeccionar um currículo, encaminhar uma carteira de trabalho, ou redigir um e-mail, facilidades que a biblioteca acabou por incorporar ao seu repertório de serviços. Também existe o morador de rua que busca o espaço da biblioteca para descansar, ou fugir do frio e da chuva. De qualquer maneira, para Manguel a real e maior ameaça para o futuro das bibliotecas é a perda da consciência popular quanto à importância da preservação da sua própria memória.

O desprezo pelas bibliotecas demonstrado pela população se reflete no poder público ou privado, que cada vez mais parece negligenciar as unidades de informação e espaços afins sob a sua custódia. O incêndio no Museu Nacional, em setembro desse ano, é um exemplo cristalino da total falta de apreço de nossa sociedade para com a sua cultura, o seu passado e a sua identidade. Nas redes sociais, a tragédia anunciada, que consumiu de modo irreversível uma infinidade de registros históricos, foi banalizada vilãmente, sendo tratada em tom de piada pelo brasileiro. A vulnerabilidade dos nossos museus e bibliotecas é alarmante. Em fevereiro de 2016, a Biblioteca Nacional sofreu um alagamento em razão de chuvas fortes e de uma falha em um dos canos da sua estrutura. Entretanto, problemas de infiltração e vazamentos não são novidades no centenário prédio.  Quando exerceu a função de responsável pelo setor de obras raras da Biblioteca Nacional, Paulo Mendes Campos  tinhas nas goteiras um inimigo terrível e tenaz.  Paulo era um poeta e cronista fora de série, e, como tal, conseguia enxergar certas nuances do cotidiano invisíveis aos olhos do cidadão comum. Uma das suas composições mais lembradas é justamente “O cego de Ipanema”, crônica na qual ele retrata um personagem triste e popular do famoso bairro carioca.

Borges dizia que “os poetas, como os cegos, podem ver no escuro”. Curiosamente, nós, criaturas perfeitas e saudáveis, não conseguimos desbaratar as trevas da nossa própria ignorância. Caminhando insensíveis entre os escombros de museus e bibliotecas, nos dirigimos, cada vez mais, à ruína final da humanidade que nos resta.

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